Esse disco é uma surpresa. Até pra mim.
No período da quarentena, abri meus arquivos e achei minha pasta com todo o material que fiz entre 2003 e 2005. Ou seja, literalmente as primeiras canções que escrevi na vida, e todas compostas em inglês. Só comecei a escrever em português um pouco antes de entrar na faculdade, em 2006.
Fui ouvindo e minhas reações mais comuns eram "que vergonha, isso é muito tosco". Na época eu nunca tinha feito uma aula de canto, gravava tudo com um daqueles microfones simples de mesa e meu teclado era... sim, o teclado do computador, que eu tocava como se estivesse jogando Guitar Hero. Não manjava quase nada de teoria, não tinha muita noção de métrica e sonoridade poética, usava umas imagens meio sem sentido... Era tudo no instinto.
Só que vez ou outra me vinha uma sensação do tipo "até que isso não é tão ruim" ou "nossa, eu nem lembrava disso" ou até "caramba, de onde eu tirei isso?". E isso foi acontecendo vezes o bastante pra eu perceber que podia usar isso de alguma maneira pra preencher o vazio criativo da quarentena. Só aí que parei pra olhar as datas. Em 2003, quando escrevi minha primeira música, eu tinha 17 anos. Hoje tenho 35. Metade da minha vida dedicada em algum nível para a música. E foi ali que tudo começou pra mim.
Daí surgiu a ideia de fazer uma seleção com o melhor dessa pasta e gravar versões novas e mais polidas, mas só com o equipamento disponível na minha própria casa. Ou seja, um único microfone, um computador e alguns instrumentos. De início iam ser só duas ou três músicas. Logo virou um EP e, quando fui ver, era um disco inteiro.
Na sorte, consegui algumas colaborações. Através do Reddit, tive a ajuda de Peter Allen (que gravou pedal steel em "Rainy Day") e de Tom Corea (que gravou bateria, mixou e masterizou todas as faixas), elevando o material a um nível que eu não esperava.
Não considero esse trabalho como canônico. Ele é mais um exercício de nostalgia e reciclagem feito sob condições – mentais e técnicas – longe das ideais.
E o resultado são essas sete faixas, que curiosamente falam sobre temas que me são caros até hoje e que ainda aparecem em praticamente tudo que escrevo. Saudade, liberdade, ânsia, tristeza, busca, entre outros. E ouso dizer, temas que vêm à tona com frequência em tempos como esses.
Esse é Burnt Papers. Espero que gostem.
Um beijo,
Gui